Mala negra, a morte

 


 Sem se conter, D. Rita, vocifera, ao mesmo tempo que abre a porta: - Que fizeste, irmão?! Que fizeste?! Em choque abre a porta e em choque caí de joelhos; leva as mãos ao rosto e chora.
    Dentro do quarto jaz no chão não um corpo de homem mas sim de mulher, nua, e muitas malas de diversas cores e feitios, artigos femininos: batons e sombras de diversas tonalidades..., máscaras, fotos, diários, toalhetes, vestidos, até livros, tudo espalhado, emaranhado, num tropel torpecido circense. A sua identidade escondida em prol de histeria exterior, além muros de seu lar, e apatia interior reencarnada em fantasmas do passado.
    D. Rita acorda lentamente do estado de abalo, de colisão violenta, inspira e expira; em pulmões acesos de ar desnorteado, nichos de andorinhas sem primavera, e procura, entre o caos, por um espelho. Não vale a pena tomar-lhe o pulso, sabe à muito que o coração de Zé apodreceu, que as artérias se tornaram espinhos, que o sangue coalhou amargo e seco. O coração doente drenou-lhe a seiva e deixou-lhe metástases, garras ferozes de cicuta a comer-lhe, em cuidados paliativos de efeito perverso, a alma por dentro.
    Encontra um espelho partido em meia-lua, meia vida, que lhe fere um dedo, fazendo jorrar um pequeno fio de sangue que chupa avidamente. Tropeça e arrasta-se por entre o mar “pandemónico” de memórias; chega ao corpo inerte e sereno, quase sem forças, olha para o rosto da irmã de lábios esborratados de vermelho e olhos excessivamente negros como a noite, paralisa... é acometida por um novo fôlego de ar e uma torrente lágrimas quentes confirmam a suspeita: o espelho junto ao nariz sem sombra ou desenho de vapor de ar. D. Rita limpa-lhe o rosto, tapa-lhe o corpo com um cobertor e desafia o destino que lhe haviam já escrito, a ambas, em letra torta e distorcida. Dirige-se à escrivaninha de Zé, retira um papel e uma caneta; senta-se na cama e escreve uma carta, não se perde em pormenores ou emoções de raízes demasiado profundas, escuras e cavernosas que a levariam a entrar em corredores labirintos sem saída à vista. Sem demora, fecha a porta do quarto, desloca-se rapidamente, até às crianças, que entretanto, adormeceram todas na sala aquecida. No seu rosto desenha-se um sorriso melancólico: iria entregar as crianças às suas famílias, logo pela manhã. Uma troca: o corpo e a alma de Zé, a mulher pelas crianças. - Agora estais todos livres, até os próprios habitantes da vila, suspirou.
    Mesmo barricada de limitações de natureza mais obscura, D. Rita vivia muitos momentos felizes com as crianças; sua vida era dar o melhor de si para que crescessem em amor, não só de corpo ou formas mas de mente e coração. Acreditava que sempre tivera dado o seu melhor.
    Levou uma a uma ao colo para a cama, cada criança dormia submersa em sonhos, estágio 3 – sono profundo, ajeitou as colchas, beijou-as pela última vez na fronte como habitual, fez uma pequena oração de agradecimento, benzeu-se, pegou com suavidade em Estrela e aninhou-se, como um grande gato preto, numa cadeira de baloiço junto ao forno a lenha, madeira a carvão em combustão vagarosa. Abraçou Estrela, que dormia plácida na tez cândida do sonho, quis acreditar que os medos são bichos vulneráveis; que os monstros da noite, minúsculos soldados de chumbo cariado, cabem todos dentro de uma mala, uma mala miniatura. E que a ameaça maior está no domínio que têm sobre si.
   - Amanhã, partiremos todos. - murmura, D. Rita, num tom quase inaudível. - e num misto novelo de emoções, terra fértil aflorada por negros marinhos e celestes, chora pelas crianças, por si, pela sua irmã Zé.

Sem comentários:

Enviar um comentário