Mala Lilás, para além da vida e da morte




   - Hoje é noite de lua preta. Convém não apoquentar os espíritos da noite. Acendi as velas que nossa vizinha trouxe, D. Zita, no altar de nosso protetor e fiz umas oferendas. - murmura baixinho D. Cidália da Luz, com receio de acordar o génio tumultuoso intranquilo de seu marido.
    Olhando sua esposa de soslaio, Sr. Fernando, não é manso de palavras, só manco e estreito de vista espiritual, chamando de “mezinhas de bobagem” a toda e qualquer demonstração de fé ou crença, não ouvindo os avisos de sua esposa para futuras punições por sua maneira nada respeitadora de assuntos espirituais.
   - Oh mulher, quanta superstição! - resmunga Sr. Fernando, enquanto insaliva preciosa sálvia trazida do México por um caixeiro viajante, seu velho conhecido. Acariciando, em simultâneo, a barriga inchada de nove meses de cirrose prestes a dar à luz as entranhas podres de enfermidade líquida, fiel influidora de longos dias de dor e tormento.
De rosto salpicado de rugas expressivas de temor, D. Cidália apela, de mãos suplicantes, à calvez lúcida do marido.
   - Sr. meu marido, não brinque com coisas sérias. Veja o que aconteceu aos portugueses Assunções? Amaldiçoados, presos naquela casa isolada de todos onde ninguém vai por medo, desde que aquele Zé assassinou a sangue frio a própria mulher!
   - Mulher, eu não assassinei ninguém! Não há nada a apontar em meu jeito de ser, portanto, não há nada que ter medo. Só tenho que aturar você com seus achaques inúteis e patéticos de meia tigela. Deixe-se de coisas, mulher. Vá lá tratar da faxina!, - Que raios! Manel da Merenda me enganou, estas folhas não fazem efeito algum. Mascar isto, p´ra quê?
    D. Cidália interrompe, medrosa, em sabedoria pausada - Meu marido, tem que mascar por mais tempo, sabe? Se assim fizer, seu corpo irá receber devidamente as propriedades das folhas.
    Sr. Fernando, danado de loucura, corre D. Cidália do quarto de repouso.- Que diabo, que percebe disto, mulher! Vá lá à sua vida! Vá, antes que te encha de porrada!
    Corajosa, a esposa, insiste, - Mas, marido convém ficar perto de você. Manel contou que você poderá ter visões, ver coisas assustadoras e que eu deveria estar todo o tempo junto de você.
    Sr. Fernando levanta o braço preparado para desferir um golpe impiedoso em D. Cidália quando vê um fumo preto a entrar pela fresta da janela, de imediato, desata aos gritos e vai esconder-se, como rato assustado, debaixo da cama a tremer dos pés à cabeça.
    A esposa preocupada, cega e surda de amor, procura acalmar o marido, que começa novamente a gritar ais de fazer gelar o sangue e de provocar pele arrepiada de galinha. Os ais desesperados culminam num diálogo, aparentemente desconexo, surpreendente e revelador, parece que a tal sombra se tinha transformado em algo ou alguém que provocava medos muito profundos em Sr. Fernando. Ele, agora, se curvava no chão de olhos fechados e mãos em jeito de reza.
   - Por favor, não me mate....Eu..., eu ...prometo....sim, prometo cuidar bem de minha mulher. Sim, sim, conto-lhe tudo. Tudo o que fiz. (D. Cidália ouve, simultaneamente, perturbada e curiosa, o seu marido) ….Ai não, isso, não... Por favor...- e D. Fernando faz a grande revelação; numa saraivada de palavras cobertas de urtigas, - pronto, conto-lhe que levei as crianças, meus filhos com as mulheres da vila a troco de joias que elas me deram, por não quererem por perto bastardos, p´ra casa de D. Rita, que é minha amante.
    Nisto, D. Cidália emudece e a sua alma enche-se de pranto; sai do quarto a correr, lavada em lágrimas, decidida a não voltar mais. Já perdoara tanta coisa ao marido, algo naquela revelação a mudara, irremediavelmente, por dentro.
    Em casa de D. Rita, as crianças dormem serenas na sala, nos braços do calor que emanava do fogão a lenha.
    A dona da casa está parada, em estátua zumbidora que não vê, que só zumbe pensamentos opacos, diante da porta do quarto de repouso do irmão Zé. Sente-se atordoada e desapontada por se ter irritado com as crianças. Do interior do quarto ouve vozes distintas, claras como a água de um rio limpo, uma feminina seguida de uma masculina, num diálogo incessante.
   - Meu amor, fugiremos amanhã, é nosso destino ficarmos juntos. Sempre foi. Desde o primeiro dia que nos conhecemos que só amo você. - declara uma voz feminina que D. Rita reconhece como sendo a voz de Liliane, esposa falecida de Zé.
   - Será um fantasma, um espírito...- pergunta D. Rita, benzendo-se, arrepiada até ao tutano da alma.
   - Liliane, meu amor, sabe que não é possível. O teu pai odeia-me; ameaçou-nos de morte caso abandonemos a vila. Acusa-me de interesseiro; que só me casei com você por ele ser abastado e o presidente da Junta da vila.
   - Meu Zé, ainda liga p’ra besteiras dessas? Meu pai não sabe o que diz, amanhã, meu amor, amanhã fugiremos. Estou farta da tirania de meu pai, sempre controlando todos nossos passos. Amanhã seremos livres para nos amarmos e termos nossa família felizes e em paz.
    D. Rita, emociona-se, compreende, finalmente, o que se passa. Abre a porta e vê o irmão sentado na cama rodeado de objetos pertencentes a Liliane. Fala sozinho, imitando perfeitamente a voz de Liliane, o que não surpreende D. Rita. O irmão Zé, antes de vir morar só com ela aquando o assassinato da amada às mãos de encapuçados, horas antes de fugirem; tinha uma companhia de teatro e fantoches, era exímio na sua arte, além das vozes dos habitantes da vila, até chilrear de pássaros imitava.
    Era Zé que divertia as crianças com suas imitações e fazia peças de teatro e as ensinava a construir fantoches.
    Zé estava em transe, em sonho acordado; não ouvia ou sentia ,D. Rita, sua irmã que o abraçava e beijava na testa. A mão esquerda de Zé segurava um medalhão de prata que continha as coordenadas do local para onde ele e Liliane fugiriam. Algo simbólico, a representar o seu amor para além da vida e da morte.




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