D. Rita, logo se arrepende de sua postura explosiva, não é sua maneira de ser: bufar e arranhar como um felino na defensiva prestes a fugir, de pavor, ou a atacar, igualmente, de pavor. Aquela situação deixa-a à deriva num mar de petróleo, para onde alguém, encapuçado, jogou um fósforo aceso...
Começa a tossir, fumo abundante
saí pela fresta inferior da porta, D. Rita, em questão de segundos,
protege o rosto com um lenço que tem no bolso, abre a porta e
depara-se com línguas de fogo a lavrar, gulosas, vários pontos do
quarto, tenta estancar algumas das labaredas, feridas abertas de
fogo, sem sucesso. Não encontra Zé no quarto, nem consegue
controlar o fogo e o fumo, demasiados abrasivos e destruidores.
Procura manter o sangue frio; tem que levar as crianças para fora de
casa, segue suada e a tossir para a sala onde as encontra ainda a
dormir, acorda-as, sem querer colocá-las em pânico, diz-lhes que
vão participar num jogo e que serão recompensadas com uma grande
festa se fizerem tudo o que ela lhes mandar. O fumo invade
rapidamente a sala, D. Rita, apressa as crianças, - Vá, depressa,
meus queridos...!, ajuda-os a vestir os casacos. Várias crianças
começam a tossir, não há tempo a perder, dá-lhes instruções: -
Junto ao velho carvalho, ide brincar “ao rei manda”. Há duas
regras de ouro; não se aproximem desta casa e os mais velhos tomam
conta dos mais novos.
D. Rita pega em Estrela,
coloca-a dentro uma cesta almofadada e protege-a com uma manta de lã
de ovelha, ordena a Acácio que a proteja, nomeia-o, em brincadeira
que criança gosta, guardião oficial da pequena Estrela. Dá-lhes um
saco de serapilheira com pão caseiro, frutas e leite; as crianças
saem para a rua, um mundo desconhecido sem mapa, e D. Rita fica
entrega às feras com corpo de chamas.
As chamas famintas devoram a
casa em longos minutos de puro tormento e terror, casa que fora
refúgio e lar de décadas de páginas escritas em vórtice de
nevoeiros indistintos. Nessa noite, ninguém vê a Dona da casa sair.
As crianças são recebidas, de braços abertos, pelas suas famílias
de origem que as aguardavam, esperançosas, desde o dia em que foram,
suspeita-se, raptadas no anonimato fortuito de uma noite fria de
rosto e coração de pedra, por mãos mortas sequiosas em roubar vida
de almas inocentes, ou talvez, pois nem o céu vê toda a verdade,
tenham sido, antes, tiradas às suas famílias como lição. Lição
do quê e porquê, é mistério.
Entre as cinzas, por debaixo de
destroços, Exu, uma das crianças do refúgio destruído, criança
estranha sem família, encontra um cofre de metal contendo no seu
interior um medalhão com inscrições - umas coordenadas
geográficas; encontra também, alguns tesouros e joias que
desencadeiam uma grande balbúrdia entre a população que,
entretanto, começara a discutir acaloradamente pela sua posse.
Alguns, inclusive, até ameaças de morte desfiavam como golpes
sorrateiros de língua ensopada em veneno mortal. Só os pais de
Estrela se mantém à parte e tentam acalmar os ânimos.
Não foram encontrados quaisquer
restos mortais de D. Rita e de Zé, daí parte dos habitantes da vila
acreditar que ambos fugiram com receio de represálias, pois tudo
apontava terem sido eles os raptores das crianças.
Exu observa os petizes junto de
suas famílias, imita o chilrear de um pássaro, elas reconhecem o
chamamento e afastam-se das famílias, correm na direcção do amigo
de muitas brincadeiras e tropelias. - É um jogo, gritam algumas
delas. Exu corre e pede-lhes que o sigam; tem em mente, o mar, sal
doce, sangue de Iemanjá - não muito longe da vila, embarcar num
barco que os aguarda a todos. Só ele ficará em terra.
Numa praia paradisíaca de areia branca,
D. Rita e Zé bebem sumo de coco e descansam sobre a sombra de uma
barraca feita de folhas e troncos.
- Achas que acabaremos por ter as
crianças aqui, Zé?, pergunta, D. Rita, a imaginar as crianças a
correr livres pelo areal, acrescentando, - Rezei e fiz uma oferenda
ao guardião da nossa família para as proteger.
- Espero que só em sonhos, minha irmã.
Que todas elas sejam felizes com as respetivas famílias e que as
famílias façam por merecer tê-las consigo.
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