segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Desencontros

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Se me desses a mão
neste nosso abismo
sei que as estrelas desceriam à terra       - fizemos um acordo: construo
só para te ouvir cantar                             um foguetão feito de nuvens e                                                                    sonhos em troca das suas visitas
sei que elas se afundariam
nas ondas dos teus cabelos
e que o teu sorriso teria a sua luz

Se o teu coração fosse pássaro
pedir-lhe-ia para esquecer as estações
e para que construíssem ninhos
até nos lugares mais recônditos e profundos     - uma expedição, tipo Júlio Verne,
                                                                            ao centro da terra interior com   
                                                                            direito a combates com monstros
                                                                            em que cada vitória nasceria, até
                                                                            mesmo, da derrota.
Se o mundo te negasse o amanhã
por quereres crescer demasiado depressa
e as garras de máquinas duplicadoras
te quisessem moldar e escravizar
e te tornasses numa bailarina de chumbo
com um coração ferido e bandido a prémio
se te quebrassem as asas
se te tirassem o céu
se o chão fundo de espinhos
e veias de lava
te ferisse os pés
e as mãos calejadas de pedras
te mutilassem a língua dos dedos
e as lágrimas secassem na fonte
se o teu maior inimigo morasse em ti
que te diria eu?
que posso dizer do mundo        - que te pode dizer o mundo? Tanto. Escuta.
que na órbita do teu nome
já não tenhas visto?
que te posso dizer da vida         - que te pode dizer a vida? Tudo o que ainda há   
que já não tenhas sentido?        para sentir
que te posso dizer da morte,     - nada que te deseje: não desejo nada que te 
da angústia, do desespero,        asfixie de tal forma que te mate os sonhos
da loucura, da dor, do cinismo,
da hipocrisia, da perda da inocência? - que a bruxa dos dentes te arranque um
                                                             dente por cada asneira grave que faças
                                                             (daquelas que demoram uma eternidade
                                                             a cicatrizar e que te tornam mais amarga  
                                                             que um citrino verde) Não me obrigues a 
                                                             comprar-te uma dentadura postiça pelo
                                                             Natal.
és invencível no teu mundo
é tudo tão tentador
a droga da mentira é viciante
que posso fazer se te perderes
num rumo incerto?             - jovens em risco = adultos em risco de serem 
                                            fulminados por um raio de "morte precoce"
abro-te um refúgio:
Perde-te Encontra-te
perde-te, sem te perderes
aos olhos de uma mãe:
perde-te, sem te perderes

Ao pássaro sem estação
“a monte”
algures entre viagens
de Sinbad
o marinheiro.


© Sofia Santos

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