terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Na mala cabe: um mito...


Paradigma do choque

Género: Sátira mitológica proscrita


“Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu.” Eça de Queiroz, in Gazeta de Notícias (1891)'

Mito: a ascensão do deus Karalius (1) à Terra.

                                                                                                                                     

O místico monte Olimpo iluminava o silêncio celeste da noite. Zeus dormia profundamente e num estado de perfeita satisfação depois de uma orgia com umas ninfas dos bosques. O que ele não sabia era que Hera, sua esposa, o espiara em segredo e ansiava o momento certo para se vingar. Ela estava farta das relações adúlteras de Zeus e dos bastardos que daí resultavam, uns meio humanos, outros meio deuses. Outros concebidos dentro do seu próprio lar vindos dos úteros de deusas e ninfas com quem convivia. Atingira o seu limite. Tinha que pensar num plano que atingisse o ponto mais sensível de Zeus mas qual? Já pensara no coração; engendrando inúmeras armadilhas contra quem ele mais amava: os seus bastardos. Mas estes conseguiam sair sempre vitoriosos, alguns, ascendendo a heróis, para cúmulo dos cúmulos.
Hera fechou-se durante quarenta dias e quarenta noites, num estado de reclusão total, sem que nada de especial lhe ocorresse. Sem comer, beber; receber
ou realizar qualquer visita até que precisamente na madrugada do quadragésimo dia, enquanto respirava o ar fresco nocturno à janela, ouviu uns gemidos vindos de um dos seus jardins centrais labirínticos. Ignorou e fechou a janela, indo-se deitar, convencendo-se de que se tratava de um dos seus novos animais de estimação (recentes aquisições para embelezar os seus jardins). Mal ela esperava que os gemidos se tornariam em acesos gritos e monólogos sem nexo. Hera não chegou a aquecer a cama, ao ouvir a gritaria insuportável vinda do jardim, abriu novamente a janela e procurou com olhos de águia a origem do barulho, qual não foi o seu espanto quando viu o seu filho Ares e Afrodite em pleno acto de acasalamento tendo como público as suas queridas Hidras domesticadas (completamente hipnotizadas pelo ardor da fusão amorosa dos dois deuses.). Depois de um inicial estado de choque seguiu-se o de curiosidade: com ouvidos de felino concentrou-se no monólogo dos dois amantes o qual acabaria por ser a chave, o tosão, a resposta, que tanto ela desejava com toda a fúria da sua alma.
Afrodite, toda corada e ofegante, gritava: - Ai meu deus! Ai meu deus!
Até aí, nada de novo. Porém, à medida que se aproximava do derradeiro clímax, Afrodite dava início a um monólogo quase imperceptível, pela velocidade com que o professava: - Tens o poder. Tens o poder dos céus. Minha paixão, fruto proibido. Gigante. Pujante, rei dos céus e da terra. Senhor meu. Rei, deus único. Rei do universo, deste mundo e além mundos. És meu, só meu...Precioso. Ao que Ares respondeu: - Ele é todo teu, meu amor! Todo teu! – e juntos alcançaram o clímax, abraçando-se sofregamente, não se distinguindo onde começava um e acabava o outro.
Hera ouvira pensativa Afrodite. Sentira-se irritada, confusa, ao repetir as suas palavras na sua cabeça. Tivera percebido que o senhor, o rei, o precioso, era o dito cujo de Ares, mas como é que ele poderia governar um universo? Lá que lhe dava a volta a ela dava, assim como Zeus dava a volta a... E ... “Eureka!” Fez-se luz! Zeus era um excelente amante, bem dotado de partes baixas centrais. Não havia uma amante que não se prostrasse aos seus pés, que não O desejasse só para ele. O maior poder, ego de Zeus, residia no seu membro vigorosamente, incessantemente trabalhador. Era Ele o grande culpado, o responsável pela generosa quantidade de bastardos existentes à face da terra... Ela já sabia como atingir Zeus, como atingi-lo profundamente para acabar definitivamente com a sua constante humilhação. Não seria com mezinhas para capá-lo, Zeus era imortal. Ainda nascia-lhe mas era logo outro. Pelo menos era o que ela pensava. Sim, já sabia o que fazer.
Tal iria exigir a junção de todas as suas forças; de mãe poderosa e infalível. Teria que fazer um pacto com um ser sombrio de outra natureza, abominável, o Belzebu ou o Tinhoso, Capiroto, Pé-de-bode, Chifrudo, Demo, Rabo-de-seta, Azarape (...). Iria precisar de todas as suas forças, habilidades, para confiar naquele ser traiçoeiro e perturbador, já que tinha a fama de ser batoteiro nos contratos maiores de alma e menores, de bens materiais.
Tratou de o convocar e Belzebu apareceu, prontamente, no seu quarto: - Ás ordens! Ora, ora! Cara Hera, a que me dá a honra de tão distinta convocação? - sibilou, esfregando as mãos.
Sem demora. Hera fez uma proposta a Belzebu: - Deixe-se coisas! Tenho um serviço para si. Necessito de um garboso garanhão dos infernos. Bem dotado, viril, viciado em mulheres, completamente irresistível. Em troca, oferto-lhe umas belas sacerdotisas virgens do meu templo pessoal. Que acha? - Hera não esperava que o Ruim aceitasse a proposta, prontamente, sem zaragatear, mas foi o que ele fez, simplesmente grunhiu: Serve! 20 virgens das suas trinta! Mas atenção: não me tente enganar ou sofrerá as consequências...
Hera sabia muito pouco sobre as suas sacerdotisas e deu um passo em falso por precipitação; o desejo de vingança a cegara. As virgens já não eram virgens há muito; encontravam-se às décadas com os magníficos centauros, inclusive, algumas já tiveram contribuído para a continuação da sua vigorosa linhagem.
Entretanto, nos abismos infernais de enxofre de Belzebu ouviu-se um uivo de raiva e todo o inferno tremeu.


Paralelamente, em Esparta e em Atenas e um pouco por todo o lado na Grécia, o povo queixava-se que tinha sido abandonado pelos deuses. Definhava aos poucos devido aos constantes e longos conflitos militares. A sua crença nos deuses estava a diminuir e as ofertas aos templos de adoração quase estagnara.
Em Atenas, o sábio que não se considerava sábio, Sócrates entregava-se ao diálogo incessante e interminável com os seus amigos Platão e Xenofonte, entre outros. “Discutiam” a natureza do bem e do mal, a imortalidade da alma e a tirania/corrupção versus justiça. Sócrates incutia nos seus amigos o amor ao desenvolvimento pessoal invés da entrega aos prazeres materiais. Ele acreditava que os filósofos é que que deveriam governar. Ora, estas ideias não agradavam nada ao mafioso jovem Meleto e companhia limitada que o acusou de calúnia. Sócrates foi presente a tribunal e defendeu-se com dignidade e virtude algo que não lhe serviu de nada porque os seus compatriotas lá queriam saber da moral e dos bons costumes. Sócrates era um parasita social a abater, havia que o calar. Era um atentado à democracia da república vigente.
Mas o que eles todos não sabiam, todos os atenienses, espartanos, todos os concidadãos da antiguidade grega é que algo de estrondoso estava para acontecer. Algo que iria mudar para sempre os anais frontais e laterais da história da mitologia grega. Um virar crucial na página da sua história brilhante.


Nos reais aposentos infernais Belzebu estava possesso; não é que ele confiasse na deusa Hera mas esta tão grande afronta? Era inconcebível, inaceitável! Virgens?! Qual virgens, qual quê! E já estava pela ponta dos cornos com a prepotência não só de Hera, demonstrada aquando as suas últimas idas a terra, como a demonstrada pelos outros deuses e deusas, que se achavam os maiores, os mais adorados e desejados pelo povo. Belzebu tinha todo o interesse em não só surpreender Hera como todos os seus adoradores. Nada melhor do que lhe retirar o seu “ganha pão”, o real motivo da sua existência: o reconhecimento e adoração leal do povo. Para os suplantar completamente, teria que convocar um novo ser, um super ser, um super deus, único, pujante, inebriante, de tal forma sedutor que levasse à perdição total quem o adorasse. Pegar no pedido de Hera e transformá-lo e ampliá-lo, serviu na perfeição a Belzebu, que com esta jogada pretendia angariar uma legião de adoradores. Depois de convocar a sua anti-bíblia privada povoada de todos seres possíveis e inimagináveis encontrou o ideal, um já conhecido e adorado nas culturas babilónicas; assírias; etruscas; egípcias... (3). Enfim, uma autêntica realeza. Tratou dos preparativos para o grande ritual de convocação do deus “Karalius”. Com todo o seu poder, erguendo as suas garras na escuridão dos abismos, invocou-o numa língua proscrita fazendo eco por todo o inferno. Ao término do último símbolo oral proscrito, uma torrente de lava começou a borbulhar violentamente numa das fendas infernais mais profundas provocando tremores de terra. E, do meio de lava leitosa morna ergueu-se um super falo erecto de proporções gigantescas; um falo com vida própria e com sangue negro e vermelho a bombar nas veias expostas. O super “Karalius”, sem parar de crescer, rebentou a crosta terrestre e emergiu do mar provocando um tsunami de lava leitosa que inundou toda a costa grega. O povo grego fugia por todos os lados em pânico e clamava, em desespero, por ajuda nos templos sagrados da cidade. Pedia protecção ao seu exército militar, aos seus governantes de estado. Todos os seus protectores fugiam a sete pés sem olhar para trás. E todo o panteão grego observava boquiaberto e completamente estático aquela lava estranhamente familiar.
Grécia ficou envolta num intrigante nevoeiro afrodisíaco que pôs o povo, o que se manteve firme e corajoso nas costas gregas, num estado de euforia, alegria, paixão, amor, desejo e uma vontade louca de se enrolar em belos rituais de acasalamento rodeados por uma orgia de felicidade suprema. .
A lava leitosa foi absorvida pelos solos gregos que de imediato se tornaram esplendidamente férteis. E em pouco tempo brotaram magníficas e estrondosas videiras de uva incrivelmente perfeita (dando origem a um néctar branco afrodisíaco). Os campos encheram-se do bom e do melhor trigo e de legumes viçosos nunca antes vistos...O povo estava abismado.
Sócrates que, entretanto, se tivera juntado ao povo (todos os presentes no seu julgamento tiveram fugido para o interior, mais seguro e estável), estava convencido, pela primeira vez na sua sábia vida, que o paraíso, afinal, era na terra. (e ponto final – fim da filosofia pouco antes de ter realmente começado): “Só sei o que vejo e o que vejo, aqui e agora, é o paraíso.” Foi a sua última frase antes de se juntar, com plena e visível satisfação no seu rosto, a um belo e formoso ateniense.
O povo respirava alegria, havia fartura de tudo. Queriam agradecer aos deuses e deusas por tamanha bênção e decidiram oferecer a todos os templos o melhor que tinham: a sua lealdade e adoração constantes. Os templos encheram-se de rituais dos mais diversificados e festas contínuas de dia e de noite. Os grandes deuses contemplados eram Zeus e Afrodite que do cimo do monte Olimpo observavam tudo, extremamente orgulhosos e radiantes, organizando bailes com todos os deuses, ninfas, musas, sátiros... Por outro lado, Hera estava de rastos, furibunda, pois sabia que não deveria ter confiado em Belzebu.
Nos confins infernais, Belzebu largava grotescos grunhidos de contentamento. Programava o início do estado de choque.
Todos festejavam as graças concedidas quando a terra voltou a sacudir, fortemente, e aspirou para as suas entranhas todo o nevoeiro afrodisíaco que cobria o território grego. O povo entrou em pânico pois teve receio de perder a alegria, a felicidade e a potente libido e todas as coisas boas que vivera até ao momento. Qual não foi o seu choque e espanto total ao ver um gigante e erecto falo vivo, mesmo à sua frente, a contrair-se em espasmos violentos e a ejacular a milagrosa lava leitosa morna para os seus solos que a absorviam gulosamente. O povo, de imediato, acorreu em grande número e prostrou-se sobre o seu único e verdadeiro deus, existente à face da terra, o super deus “Karalius”. E, o silêncio estendeu-se a todo o território grego que aguardava ansiosamente as directrizes do seu novo e super deus “Karalius”. Este começou a libertar umas vibrações que ganharam a forma de palavras consistentes e libertadoras: - Meu povo, eu vos digo, a única derradeira verdade é esta: São felizes se: amarem-se muito invés de procurarem a guerra (4); rirem livremente dos pequenos e grandes desaires pois só assim terão genica para os vencer;  aproveitarem sempre as boas coisas que a vida têm para vos dar, aqui e agora, para todo o sempre. E nisto, abriu-se uma enorme fenda nos solos pela qual o grandioso vivente e sábio “Karalius” desceu solenemente. Assim, partiu para não mais voltar, o proscrito, o amado, o desejado, o odiado (dos primordiais até à actualidade). Para o recordar, o povo erigiu-lhe estátuas; fabricou esculturas em cerâmica e ferramentas práticas e úteis para o quotidiano (5). Quanto ao panteão grego, esse nunca foi esquecido, foi relembrado por gerações inteiras como as divindades pré-Kareliuenses; com todo o valor que lhes era devido. Mas não se livraram do choque, Zeus rendeu-se ao culto do falo e transmutou-se num eremita seguidor do Santo Falo. E Hera, bem, Hera, enlouqueceu e deambulava nua e feliz, à noite, pelos montes Olimpos; precisamente no mesmo sítio, onde ouvira falar pela primeira vez, na doce voz de Afrodite, do “Rei do universo deste mundo e além mundos”.

Pam, pem, pim,
Esta longa sátira
Termina assim!

1- Karalius (significa “rei” em lituano).

Possíveis elementos representativos/heranças culturais: “o caralhinho” (misturador típico em madeira, utilizado na confecção da famosa poncha tradicional madeirense - 2) ou o não menos atraente, “caralho das Caldas” (peça integrante do artesanato típico caldense). Ambos muito apreciados pelo povo pelas suas óbvias virtudes.

2- Ingredientes da poncha madeirense tradicional: aguardente de cana de açucar; Mel de abelha; 1 Limão (e açúcar).

3- Culto de fertilidade.


4- Sábias palavras recicladas na década de 60, pelo movimento hippie americano, que defendeu a máxima “Make love, not war”, aquando a guerra do Vietname.

5- Ainda se mantém esse mesmo costume em algumas partes do mundo. Nomeadamente numas certas zonas típicas em Portugal continental e insular.


Foto retirada: http://arte-factoheregesperversoes.blogspot.com/2011/10/o-falo-e-indignacao.html

(2009)

MG 

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