Hoje, ou todos os dias até que me mandes calar, quero
dizer-te com todas as letras: Amo-te! Eu, Je, I … Amo-te!
Digo-te que Te Amo até noutras línguas, aqui vai:
Tu magel moga cho
(Concani)
Ounakrodiwakit
(Esquimó)
Inhobbok
(Maltês)
Asavakit
(Gronelandês)
Ljubim te(Esloveno)
Qanta munani
(Quíchua)
*
Já te disse que te
amava; agora segue-se a parte menos confortável; a de uma relação a dois, a
três; a quatro, depende do tipo de família...
Ui! Às vezes o amor
dói. Dói tanto, mas tanto...
Não é novidade
nenhuma: estou doente. Sempre estive doente de alguma coisa. Os meus sapatos
estão rotos de tanta doença e caminho descalça. Os teus sapatos não me servem,
nem os meus servem nos teus pés. O quê? Não! Não te deixo experimentar os meus
sapatos foleiros, mal - cheirosos. Sim, estão em casa dentro de um saco. Nem
quero os teus, obrigada. Nem obrigada! Às vezes, tens umas ideias estranhas.
É de família!
A nossa família é assim: estranha. E não
há nada que se possa fazer. Minto, minto quase sempre. Neste caso, minto. Há
algo que se pode fazer: reinventá-la. Reinventar tudo. Pais que se amam,
querem, e que se abraçam. O amor pode doer tanto quanto a dor. O amor é a dor
de crescer em lágrimas, todo o género de lágrimas. Género masculino, feminino,
misto. Lágrimas de dentro e de fora, lágrimas da chuva e da mão do vento. O
vento que exerce a erosão na alma do tempo. Que lima, desgasta e que lhe dá
paisagens novas.
Uma família unida. Avós atentos às necessidades dos netos. Pais que se amam de todas as formas possíveis e que amam, mesmo sem possibilidades, os seus filhos. Pais que protegem com a vida que lhes é tudo. Porque a vida é tudo o que temos. Qualquer tipo de vida. A vida no amor, na dor, num irmão, filho - nos outros, nos outros que estão dentro de nós. A dor pode dar vida, desde que não a tire. A dor de um parto, de um luto, de uma luta interior e exterior, da fome, de muitas fomes... da dor de ser quem somos, o que fomos, o que intuímos que poderemos vir a ser... a dor de não saber ou a dor de saber. A família é assim.
Uma família unida. Avós atentos às necessidades dos netos. Pais que se amam de todas as formas possíveis e que amam, mesmo sem possibilidades, os seus filhos. Pais que protegem com a vida que lhes é tudo. Porque a vida é tudo o que temos. Qualquer tipo de vida. A vida no amor, na dor, num irmão, filho - nos outros, nos outros que estão dentro de nós. A dor pode dar vida, desde que não a tire. A dor de um parto, de um luto, de uma luta interior e exterior, da fome, de muitas fomes... da dor de ser quem somos, o que fomos, o que intuímos que poderemos vir a ser... a dor de não saber ou a dor de saber. A família é assim.
Estranha ou não.
A família está
cheia de vida, morte, dor e amor. Loucura, por vezes. Na família que reinvento
os pais abraçam os filhos, abraçam numa entrega que não agride ou viola
confiança. Nem sempre os abraços necessitam de incorporar uma forma física. Há
que descobri-los como a um tesouro, uma pedra preciosa rara. Um olhar ou
palavras podem ter a forma de um abraço. Nem todas as pessoas conseguem dar um
abraço físico. O abraço tem que ter forma de carne?
Se há um
olhar, se há palavras. Coloco tudo isso dentro de uns braços de pele
invisíveis. E sinto-os. Por favor, sente-os!
Imagina o
tal abraço. Imagina-o bem. Com incenso. De olhos bem fechados. Música zen, se
for do teu agrado. Não te interessa, bem sei, mas digo à mesma: eu prefiro
música tipo “heavy metal”. Mas duvido que conseguisse imaginar um abraço “à
heavy metal”. Como é que é um abraço “heavy”? Seria um abraço como todos os
outros? Este abraço que vais receber é invisível. Podes torná-lo visível, se ao
receberes abraçares outra pessoa.
Na família que reinvento, os pais estão presentes nos momentos mais cruciais. No primeiro choro, a embalar-te quando choras, quando cresces e te caem os dentes todos da frente e ris como uma desalmada. - Estás mesmo gira, assim desdentada, seria o que a tua mãe diria. O teu pai pegar-te-ia ao colo e lançar-te-ia ao ar, nunca te deixaria cair. A tua mãe contar-te-ia histórias antes de dormir, um livro que escolheriam juntas. Terias o seu apoio na escola. Terias regras com amor.
Na família que reinvento, os pais estão presentes nos momentos mais cruciais. No primeiro choro, a embalar-te quando choras, quando cresces e te caem os dentes todos da frente e ris como uma desalmada. - Estás mesmo gira, assim desdentada, seria o que a tua mãe diria. O teu pai pegar-te-ia ao colo e lançar-te-ia ao ar, nunca te deixaria cair. A tua mãe contar-te-ia histórias antes de dormir, um livro que escolheriam juntas. Terias o seu apoio na escola. Terias regras com amor.
Amor dado sem
regras. Nunca te sentirias desprotegida e com frio e só. O tipo de só que te
afasta de todo o mundo que te rodeia. O tipo de só que te afasta de ti própria.
O tipo de só que é um bilhete de ida ao abismo dantesco da loucura. - O louco
está distanciado/desfasado ou mais próximo da sua essência? Se estiver mesmo
louco nem poderá pensar em respostas ou perguntas. Se estiver louco, mesmo
louco, o que sentirá?
Com a família que reinvento, não te sentirias perdida. Pelo menos, por muito tempo. Bastaria uma memória, uma recordação. Ou algo mais palpável -audível, um telefonema: Olá mãe, está tudo bem?- seria mais ou menos o que lhe perguntarias. Seria o que lhe perguntarias, porque no fundo; é pela resposta que aguardas sempre. E a tua mãe responderia: quanto é que vens? Temos saudades tuas! - As saudades dar-te-iam alento. Aqueceriam as pontas frias de todos os membros do teu corpo (a ponta do nariz, a pontas dos dedos dos pés e das mãos, a extremidade das orelhas...). E depois aquecer-te-iam por dentro o sangue e o sangue todos os teus órgãos e os teus órgãos aquecer-te-iam o espírito e o espírito a tua alma. As saudades seriam um ninho, um refúgio quentinho.
Na família que reinvento, os pais, acrescento uma nova informação, juntos ou separados, desde que que te amem, preocupam-se com a hora a que chegas a casa. Preocupam-se se tens amigos e se tens namorado. Preocupam-se em não te julgar e aceitam-te como és. Mesmo que tu não saibas bem quem és. Mesmo que tu não saibas e que penses que sabes, pois estás em plena adolescência. Eles amam-te e se o amor conhece, eles conhecem-te. E eles não esquecem as regras com amor. E o amor que dá sem regras.
Se estás apaixonada. É uma alegria, uma festa. - Estou feliz por te ver tão feliz. Tens preservativos, certo? É o que esta mãe te diria, feliz e ansiosa. E se o primeiro amor acabasse num mar de lágrimas de tragédia, contigo fechada dentro do quarto a chorar horas a fio, ela levar-te-ia a comida e esperaria que aceitasses o seu abraço, colo ou ombro. Não interessa o quê, nem como. Ela estaria ali. E a sua presença seria tudo. Quanto ao teu pai, do lado de fora da porta - se estiver fechada- ou à entrada -se estiver aberta- viria informar-te que teve uma conversa com o rapazito em questão. Ficarias assustada. O teu pai é um homem que é muito sereno até perder as estribeiras. Ninguém lhe faz frente, principalmente se lhe cheirar a injustiça. É muito, muito sensível. Ficarias assustada; mas depois ele rir-se-ia. O seu sorriso iluminaria o teu rosto. Os dois, o teu pai e a tua mãe, estariam ali, presentes, presentes no seu amor por ti.
A tua mãe seria uma mulher empreendedora, dona de uma negócio por conta própria, alegre e bem-disposta. Um pouco nervosa, extremamente carinhosa com os seus. O teu pai seria um homem trabalhador, honesto, batalhador e protetor. Características que pouco os ilustrariam. Porque sendo teus pais, sendo pessoas que te amam muito, tudo o resto é irrelevante. O amor torna tudo relevante.
Já adulta…
Com a família que reinvento, não te sentirias perdida. Pelo menos, por muito tempo. Bastaria uma memória, uma recordação. Ou algo mais palpável -audível, um telefonema: Olá mãe, está tudo bem?- seria mais ou menos o que lhe perguntarias. Seria o que lhe perguntarias, porque no fundo; é pela resposta que aguardas sempre. E a tua mãe responderia: quanto é que vens? Temos saudades tuas! - As saudades dar-te-iam alento. Aqueceriam as pontas frias de todos os membros do teu corpo (a ponta do nariz, a pontas dos dedos dos pés e das mãos, a extremidade das orelhas...). E depois aquecer-te-iam por dentro o sangue e o sangue todos os teus órgãos e os teus órgãos aquecer-te-iam o espírito e o espírito a tua alma. As saudades seriam um ninho, um refúgio quentinho.
Na família que reinvento, os pais, acrescento uma nova informação, juntos ou separados, desde que que te amem, preocupam-se com a hora a que chegas a casa. Preocupam-se se tens amigos e se tens namorado. Preocupam-se em não te julgar e aceitam-te como és. Mesmo que tu não saibas bem quem és. Mesmo que tu não saibas e que penses que sabes, pois estás em plena adolescência. Eles amam-te e se o amor conhece, eles conhecem-te. E eles não esquecem as regras com amor. E o amor que dá sem regras.
Se estás apaixonada. É uma alegria, uma festa. - Estou feliz por te ver tão feliz. Tens preservativos, certo? É o que esta mãe te diria, feliz e ansiosa. E se o primeiro amor acabasse num mar de lágrimas de tragédia, contigo fechada dentro do quarto a chorar horas a fio, ela levar-te-ia a comida e esperaria que aceitasses o seu abraço, colo ou ombro. Não interessa o quê, nem como. Ela estaria ali. E a sua presença seria tudo. Quanto ao teu pai, do lado de fora da porta - se estiver fechada- ou à entrada -se estiver aberta- viria informar-te que teve uma conversa com o rapazito em questão. Ficarias assustada. O teu pai é um homem que é muito sereno até perder as estribeiras. Ninguém lhe faz frente, principalmente se lhe cheirar a injustiça. É muito, muito sensível. Ficarias assustada; mas depois ele rir-se-ia. O seu sorriso iluminaria o teu rosto. Os dois, o teu pai e a tua mãe, estariam ali, presentes, presentes no seu amor por ti.
A tua mãe seria uma mulher empreendedora, dona de uma negócio por conta própria, alegre e bem-disposta. Um pouco nervosa, extremamente carinhosa com os seus. O teu pai seria um homem trabalhador, honesto, batalhador e protetor. Características que pouco os ilustrariam. Porque sendo teus pais, sendo pessoas que te amam muito, tudo o resto é irrelevante. O amor torna tudo relevante.
Já adulta…
Adulta de corpo, criança de
espírito e alma. Já adulta decidirias ir para a universidade de outra cidade.
Deixarias saudades. Saudades que seriam atenuadas com um telefonema em que ouvirias
a voz da tua mãe - Quando é que vens? Temos saudades tuas. Saudades que
matarias com as idas esporádicas a sua casa.
Farias
muitos amigos na universidade. Conhecerias vários amores. Terias um grande
amor.
Casarias
com esse amor. Não teriam filhos biológicos. Há muitas crianças sem família. O
teu marido e tu adotariam duas crianças. Os avós maternos e paternos, que
também já foram pais, ficariam loucos de alegria.
Uma loucura feliz!
O teu marido e tu, embora muito diferentes. Tu mais aberta e de espírito independente. Ele mais reservado e introspetivo. Tu e ele seriam felizes. Teriam, como todas as relações, momentos mais fáceis do que outros: com discussões e reconciliações na cama ou sem ser na cama, como muitos outros casais. Os avós tomariam conta das netas quando os dois saíssem para ir ao cinema, ao teatro a um jantar romântico, à praia, a um hotel. E esses momentos seriam só vossos. Serias amada e desejada e esse amor seria retribuído à tua medida ao teu marido, amante, amigo, companheiro.
Com as crianças serias a mãe terna, compreensiva, forte e sensível. A mãe que abraça com o corpo todo: com os gestos do sorriso, com todos os dedos da mão, com todos os músculos quentes e macios dos braços.
Terias os teus momentos a sós. Em que estar só é paz e calma. Não medo, loucura insana -sem retorno- ou dor destrutiva. A dor que mata, destrói ou corrói como ácido sulfúrico as entranhas da alma.
E seria só que te levarias para fora do teu corpo. E nessa forma disforme, não visível, andarias descalça pelas ruas. E seria com essa forma disforme que me encontrarias descalça a andar por essas mesmas ruas. Não te veria, mas sentir-te-ia por perto. E ao te sentir por perto sentir-me-ia irremediavelmente feliz.
Temos uma família estranha e somos todos estranhos. Até o amor tem uma presença estranha no nosso planeta dimensional estranho. A morte e a loucura são assuntos não estranhos na nossa estranheza pela vida. Na nossa apropriação ilegal por terrenos inóspitos e sombrios da vida, nem a razão sobrevive à emoção. À emoção que não se estranha e que não estranha o amor. O nosso amor é estranho. O amor é estranho. Por ser tão estranho, dizer “amo-te”, é dito com alguma estranheza. Uma estranheza que não conhece limites.
O teu marido e tu, embora muito diferentes. Tu mais aberta e de espírito independente. Ele mais reservado e introspetivo. Tu e ele seriam felizes. Teriam, como todas as relações, momentos mais fáceis do que outros: com discussões e reconciliações na cama ou sem ser na cama, como muitos outros casais. Os avós tomariam conta das netas quando os dois saíssem para ir ao cinema, ao teatro a um jantar romântico, à praia, a um hotel. E esses momentos seriam só vossos. Serias amada e desejada e esse amor seria retribuído à tua medida ao teu marido, amante, amigo, companheiro.
Com as crianças serias a mãe terna, compreensiva, forte e sensível. A mãe que abraça com o corpo todo: com os gestos do sorriso, com todos os dedos da mão, com todos os músculos quentes e macios dos braços.
Terias os teus momentos a sós. Em que estar só é paz e calma. Não medo, loucura insana -sem retorno- ou dor destrutiva. A dor que mata, destrói ou corrói como ácido sulfúrico as entranhas da alma.
E seria só que te levarias para fora do teu corpo. E nessa forma disforme, não visível, andarias descalça pelas ruas. E seria com essa forma disforme que me encontrarias descalça a andar por essas mesmas ruas. Não te veria, mas sentir-te-ia por perto. E ao te sentir por perto sentir-me-ia irremediavelmente feliz.
Temos uma família estranha e somos todos estranhos. Até o amor tem uma presença estranha no nosso planeta dimensional estranho. A morte e a loucura são assuntos não estranhos na nossa estranheza pela vida. Na nossa apropriação ilegal por terrenos inóspitos e sombrios da vida, nem a razão sobrevive à emoção. À emoção que não se estranha e que não estranha o amor. O nosso amor é estranho. O amor é estranho. Por ser tão estranho, dizer “amo-te”, é dito com alguma estranheza. Uma estranheza que não conhece limites.
E...
Amo-te ...
* livro “Amo-te em todas as línguas”, Edições Chá das Cinco.
© Sofia Santos

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