sábado, 8 de dezembro de 2012

JUNTO AO CORAÇÃO, UMA MALA DE CÉU INVERNAL



          Uma mala carmim chorosa e pulsante é deixada à porta de Dona Rita de Assunção, dona de um refúgio de crianças em processo de enjeito por tempo indeterminado. As paredes, cor de terra cota debilmente escamada, estremecem com os gritos selváticos inconsoláveis vindos das entranhas almofadadas da mala com formato a lembrar um coração distendido.
        D. Rita espreita pela janela sem cortina, os seus olhos sorriem de tristeza, já sabe o que a espera; é um ritual que se repete: rostos de corpo pequeno, sem nome e lar, a tremer de choro e frio. Só a cor e a forma das malas é que se altera.
        Seu irmão, Zé Assunção, num vagar recrudescente, blasfema em tom negro e bruto de carvão baço, alhos e bugalhos. Irrita-o a vã e conivente condescendência com que todos os habitantes da vila que, por cega natureza, mortiça e gélida, colocam os recém-nascidos como trouxas humanas, carne e sangue de si enjeitado, dentro de malas de última moda. Pequenas aves sem penas em caldo de desamor com sabor a morte servido em prato de fina porcelana.
       Zé agarra, sem delicadeza, nas pegas de pele da mala; sem vislumbrar o pequeno rosto disforme de choro, estremunha na noite cerrada e triste berrantes e contundentes palavras: - Seus grandes filhos da puta! - e retrai-se, algo o faz paralisar, petrificar; o seu corpo enche-se de uma extensa e profunda película de medo, condensado vento gelado, aquando o surto repentino de vozes fantasmagóricas de criaturas da noite a engolir saliva metálica no cesto de raiva que lhes era ofertado. D.     Rita, sua irmã, puxa-o pelo braço para dentro de casa, mais acolhedora e segura: - Meu irmão, não os apoquentes. Já esqueceste o que aconteceu na última vez? É o nosso acordo que alimenta assim as coisas; é uma vindima prematura que nos espera, se o quebrarmos. Silêncio é o que te peço. Silêncio e muita calma são o tronco de salvação de muitas vidas. - e dá-lhe um beijo na testa, retirando-lhe a mala carmim das mãos. Mala essa, plena a rebordo de infantil e pura pólvora roliça estridente em forma de gente.
       D. Rita pega no pequeno ser e envolve-o numa manta de lã quente, quão lagarta em casulo térmico, aquecida previamente junto ao fogão de lenha e aconchega com suavidade experiente e saudosa a recém-nascida, sim, uma menina, uma mulatinha linda, agora mais repousada e curiosa, fixa de encanto, nos lábios de rosa pálida de D. Rita. Lábios que embalam a pequena, ainda de nome por nascer, em doces e antigos cantares e afagos, beijando-a, gentil e protetora, como a uma cria de loba, cheia de lua e fome de viver.
       Abatido e sem pinga de sangue, combalido de susto e terror, Zé pressiona a mão no lado esquerdo do peito, sente a carne costurada de quarto crescente, o coração por bater em caixa vazia dissonante, e viaja por cicatrizes remotas. Retira, a tremer, do bolso das calças um frasco de plástico e engole todo o seu conteúdo. Em pele descalça, nem pinga de sangue ou de suor sobrevive; de boca seca em brasa, Zé deseja, cabisbaixo e sombrio, as boas noites à sua irmã e dirige-se, com a mala carmim na mão, e cheiro de insónia, ao quarto de repouso.
         D. Rita, de olhos, um rubi e outro, diamante, cintilando estrelas, aconchega-se junto ao fogão; a pequena começa, impacientemente, a chorar-lhe nos braços descobertos, sente-lhe, na humidade adiposa, lágrimas nutritivas, fonte de vida, a verter dos mamilos gordos, nus e febris, entretanto revelados por ser ocasião do primeiro ritual de amamentação. D. Rita demora-lhe o peito esquerdo junto ao rosto e a pequena boca faminta descobre-lhe o mamilo abocanhando, ventosa, a sua base escura. Todo o seu pequeno corpo de cria, depois de saciado, adormece em sonho vivo feito de braços e nuvens de puro algodão e ervas de chá doce em chaleira de cobre.
         D. Rita afaga-lhe a testa, o nariz, as faces, e perde-se num sinal peculiar junto ao ouvido direito. Recorda-se da tradição que lhe impuseram, sem lhe querer opinião ou consentimento, do nome por nascer: toda a criança que entra naquela casa, entra com sinal no corpo e o sinal é portador de nome próprio para toda a vida. Pensa em surdina: sorte que nenhuma criança teve sinal de coisa feia, já vi manchas escuras em forma de nome de flor, árvore, lua, seres mitológicos... Olha para o sinal da princesa adormecida e esboça um sorriso, rindo, o nome próprio, sai de seus lábios, musical, cantado: - És uma estrela. O portador diz que te chamas Estrela.
      Ouve-se um estrondo, uma porta fecha-se. O momento contemplativo de paz do parto de nome é ferido por choros e gritos. D. Rita pula de susto. Acácio, um menino de cinco anos entra de rompante na sala, arquejante, um mocho sem pio, aterrorizado. Os seus olhos gritam morte. D. Rita sente um calafrio na espinha, acalma o menino, diz-lhe que se sente junto ao fogão a velar nos braços o sono colorido de Estrela.
        D. Rita, tensa, de corpo em tronco de árvore anciã, acorre ao quarto das crianças, todas elas acordadas, vestidas e com sacos de pertences na mão, em jeito de saída. Zangada, não escuta o engano que o coração lhe esconde, sem chave, em cofre fechado a aço e fogo. A passo de caça tardia bate com a cara na porta do quarto de Zé, seu irmão. Quarto fechado, sem chave, porta poeirenta carcomida pelas areias movediças do tempo. Mandioca, uma menina de quatro anos, traz-lhe a chave e entrega-lha, de olhos tristes e chorosos. D. Rita, de semblante carregado, uma pantera em posto de ataque, afasta violentamente as crianças, que assustadas e surpresas com a revelação da nova faceta brusca, severa, da sua mãe adotiva, a quem carinhosamente chamavam de Mãe, fogem para divisão da casa, a sala-de-estar, onde se encontra Acácio e a pequena Estrela a dormitar.

© Sofia Santos

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