sábado, 8 de dezembro de 2012

O PROBLEMA ESTÁ EM METER LÁ MÃO...



              Se se mete, não se sabe como sai porque lá dentro labirintos de coisas, papéis, lenços, derivados de higiene íntima, frascos de perfume,
             - Carolina Herrera? É muito doce e para doce basto eu, quer dizer e depois tens a mania da diabetes, moça… Volta mas é para dentro da mala que não quero falar de perfumes, ias bem lançado de modo que carteiras, brincos, coisas materiais diversas até uma sandes de pão integral com fiambre magro e uma folha de alface que se torna entretanto negra ao fim de meia dúzia de horas, a folha de alumínio toda amarrotada que nas horas de tédio serve de brinquedo ora fazer os ponteiros de relógio correrem em meio fundo, coitados, e as horas da sandes ou lá o que se possa chamar àquilo exatamente as mesmas que a dieta demora a agitar as campainhas da fome,
            - Não comas de mais que depois alargas ou as portas tornam-se estreitas, nunca conseguiste desfazer essa dúvida, mulher!
            O telemóvel a um canto e quando toca parece que a nenhum canto porque as malas não têm cantos ou os cantos não existem nas malas, porque as malas são sempre pequenas e contudo enormes e por vezes nelas cães que ladram, tijolos de arremesso, manuais de uso da língua, papelinhos com frases de charme ou mal dizer, conforme a língua determina ou pede.
           Nas malas tudo, risos em pacotinhos embrulhados em graciosidades, lágrimas dentro de frascos com rolhas igualmente graciosas, unhas delicadas, anéis sortidos, pedaços de mulher como se fossem peças a usar quando outras se negam a responder ao desafio da condição feminina e juro que uma vez, numa mala pousada num banco de jardim enquanto a dona a remexia num afã de formigas, pedaços de céu entravam para o seu interior, não nuvens, mas céu azul que havia de tornar aquela mala um pedaço dele porque no meio de tudo o que está dentro da mala de uma mulher, está também o céu e se vires bem, o problema nem é tanto meter a mão lá dentro mas sim não teres vontade de a tirar de lá!


©António Luís

1 comentário:

  1. Luís: fiquei fã dessa mala cheia de realidade poética que ora nos prende ao quotidiano; ora nos faz sonhar com o céu...:) abraço

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